Ensaio enviado
por Carlos Messias
24 anos, São Paulo-capital
Essa
já se anunciava uma cerimônia diferente: filmes
com temas polêmicos e sociais, supostamente com conteúdo,
formavam o elenco de indicados.
O apresentador, John Stuart, também trouxe uma nova
proposta, tornar a cerimônia um pouco menos “cerimoniosa”.
As categorias técnicas foram intercaladas por uma
ou outra “categoria maior”.
Veio a premiação por ator coadjuvante. George
Clooney, o grande indicado da noite, recebeu um prêmio,
merecido, por sua participação em Syiriana,
sugerindo que seria a grande estrela da noite. Deu um belo
discurso sobre a impossibilidade de mensurar a qualidade
de uma atuação em detrimento de outra, quando
essas atuações ocorrem através de personagens
e produções tão diferentes. Pois a
apreciação da Arte é algo subjetivo,
e não deveria ser tratado como uma competição
esportiva. Mas se rendeu, dizendo que estava orgulhoso de
entrar para aquele círculo. Ele também concorria
como roteirista e diretor, por seu longa-metragem Boa
Noite, Boa Sorte.
Rachel
Weiz recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante
por sua atuação em O Jardineiro Fiel,
uma das grandes produções do último
ano, mal lembrada na premiação.
Voltam as premiações técnicas. King
Kong, sempre com a proposta de ser tecnicamente impecável,
visto que essa é uma das únicas qualidades
da fita, foi papando uma a uma. Memórias de Uma
Gueixa também foi sendo lembrado.
As grandes premiações foram chegando. Phillip
Seymour Hoffman recebeu o prêmio, merecido, de melhor
ator. Por mais que, na minha opinião, dentre os indicados,
a atuação de Joaquim Phoenix por Johnny
e June havia sido a mais surpreendente e impecável.
Mas avaliando-se o conjunto da obra, Hoffman também
merecia esta chance.
Já
Reese Whitherspoon, realmente se superou ao interpretar
June Carter e também mereceu a estatueta por melhor
atriz.
Outro grande ator indicado era Matt Dillon, por uma atuação
memorável em Crash. Mas, pensei então,
nem um ator como este pode salvar uma produção
chula. Crash já havia levado melhor montagem
e imaginei que fosse ficar por aí.
A
festa estava superando minhas expectativas, pois por mais
que certos filmes medíocres houvessem sido indicados,
a premiação estava sendo condizente aos atributos
de cada qual.
A
coisa mais estranha, até então, havia sido
um grupo de rap levar o prêmio de melhor canção.
Quando
O Segredo de Brokeback Mountain recebeu os prêmios
de melhor roteiro adaptado e melhor direção,
eu achei um pouco forçado, uma vez que tinha concorrentes
tão superiores, mas “este ano eles estão
premiando pelo conjunto da obra”, pensei; e Ang Lee,
bem que merecia tal prêmio por seu trabalho como diretor.
A
verdadeira bomba me pegou desprevenido, quando chegou a
premiação de roteiro original. Dentre tantos
roteiros primorosos como os de Syriana, Boa
Noite, Boa Sorte e Ponto Final, de Woody Allen
(filme que na minha opinião também deveria
ter sido indicado e premiado por atriz, trilha sonora, direção
e filme), eis que o nome do vencedor foi anunciado: Crash
– No Limite, de Paul Haggis e Robert Moresco.
E
então, pela boca do grande Jack Nicholson, veio o
nome do “melhor filme do ano”. Novamente, Crash
– No Limite: inacreditável! Que juiz,
em sã consciência, tendo o mínimo de
apreciação pela sétima arte poderia
julgar esse filme superior aos outros em seja qual âmbito?
Paul
Haggis, queridinho da academia desde Menina de Ouro
se mostrou suscetível à politicagem fajuta
da Academia de Cinema e da fraude que é o Oscar.
Pois por mais que este tenha sido o ano dos filmes “com
conteúdo”, com uma mensagem, com algum apelo
social, não podemos esquecer que cinema é
Arte e esses assuntos devem ser tratados com sutiliza e
fluência, com um mínimo de poesia. Não
da maneira atropelada, tosca e presunçosa como foram
abordados em Crash, que justamente recebeu o prêmio
por roteiro.
Toda
essa cerimônia do Oscar é um teatro para burguês
ver. Uma forma de justificar o gosto medíocre da
população em geral pelo cinema pipoca e assim
gerar números ainda mais altos de bilheteria. Como
aconteceu com Titanic.
É uma bajulação hipócrita que
visa “adestrar” os verdadeiros cineastas, tornando-os
suscetíveis a produzir filmes segundo a receita holywoodiana,
que costumam ter o efeito de emburrecer a população.
Boa Noite, Boa Sorte e Syriana não
se encaixaram nesse perfil, mas eles viram potencial em
George Clooney. Com o propósito de mantê-lo
sob suas asas, deram-lhe um prêmio de consolação,
por ator coadjuvante. Assim eles fizeram o seu social, afinal
“se lembraram dele”, e quem sabe não
fazem com que Clooney tente cada vez mais produzir filmes
que sejam premiados em categorias de maior prestígio.
De modo que essa receita seja sempre utilizada.
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