Junho de 2008 - Nº 10     ISSN 1982-7733
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Inês - Gil Vicente por ele mesmo
Direção:Achileu Nogueira Neto

Adriana Lobo

20 anos, aluna do Teatro-Escola Célia Helena e do curso de Artes Cênicas da UNESP

São Paulo- capital

Foto:Divulgação

   

A Cia dos Ícones apresenta-nos sua nova montagem: Inês – Gil Vicente por ele mesmo. Muitos trabalhos da Cia possuem um caráter social, o que justifica a escolha de um texto de Gil Vicente, considerado o pai do teatro português e fundador da dramaturgia daquele país. Escolas levam seus estudantes para assistir a peça, lembrando que esse autor é leitura obrigatória para o vestibular de muitas universidades.

Diz-se que essa farsa foi escrita por Gil Vicente a pedido de Pero Marques, que propôs a ele um desafio na Corte diante do rei e da rainha, duvidando da sua capacidade como dramaturgo, já que ele era acusado de plagiar autores espanhóis. Esse episódio é narrado por um ator que apresenta-se como Gil Vicente, e os outros atores formam seu grupo de teatro. Eles começam assim a encenar o que seria o “improviso” da Farsa de Inês Pereira na Corte, valendo-se assim do recurso do metateatro. Um recurso difícil de ser trabalhado, mas muito bem utilizado. A peça possui um alto caráter didático, chegando mesmo a ser explicativo. Mas tendo como ponto de vista o público-alvo e a proposta da Cia, talvez isso tenha sido necessário.  

A montagem não se restringe ao século XVI sendo adaptada à atualidade. A comicidade já tão natural do texto, uma farsa popular, é acentuada pelas piadas e tiradas cômicas dos atores. O texto também é adaptado a uma linguagem atual, o que facilita a compreensão porém distancia-se um pouco do original da obra. A trilha sonora é muitíssimo bem utilizada, equilibrando as músicas “medievais” que acompanham as cenas da farsa com as músicas contemporâneas inseridas em momentos específicos para causar comicidade. Funciona muito bem.

Destaque para o excelente preparo dos atores, que possuem um grande domínio da técnica de triangulação com a platéia, tão característico do teatro popular, e da improvisação. Além de todo um domínio da técnica necessária para fazer comédia, já que sabemos não ser nada fácil tirar riso de uma platéia comum, quanto mais de uma platéia formada por estudantes do nível escolar.

Destaque também para a direção que soube marcar os momentos importantes do texto para acentuar a comicidade sem atrapalhar o desenvolvimento da história, além de uma boa transposição de situações e falas para a atualidade.

Uma montagem muito interessante pra quem quer conhecer um pouco mais da obra de Gil Vicente sem deixar de se divertir. O riso é garantido.

“INÊS – Gil Vicente Por Ele Mesmo”

Autor: Achileu Nogueira Neto

Local: Teatro Ruth Escobar - Sala Dina Sfat

Rua dos Ingleses, 209 – Bela Vista – São Paulo / SP

Bilheteria: R$ 40,00 (inteira) - R$ 20,00 (meia)

Até 26 de junho, quintas-feiras, às 21h

Apresentações extraordinárias e/ou reserva para grupos: (11) 5531-6347

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VOCÊ SABIA?

Quem foi Gil Vicente?

 

Muito do que se sabe a respeito de Gil Vicente é suposição, devido à falta de registro histórico confiável. Ele nasceu em Portugal, não se sabe exatamente em que cidade, entre os anos de 1465 e 1470 e morreu entre 1536 e 1540. O mais certo é que ele tenha sido ourives e essa função lhe permitiu acesso à Corte.

Em 1502 por ocasião do nascimento do rei D. João III Gil Vicente apresentou na Câmara Real uma peça de sua autoria chamada “O Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”. A rainha D. Leonor ficou tão satisfeita com sua performance que o convidou a escrever outras peças em ocasiões festivas. Tem-se essa data como início do Teatro Português, embora vale lembrar que o teatro popular (farsas, momos, pantomimas) e o teatro medieval de caráter religioso (moralidades, mistérios) nunca deixaram de existir apesar da ausência de documentação escrita.

  Gil Vicente foi um observador dessa sociedade da época, criticando-a em suas peças. Seus personagens representam tipos (o velho, a alcoviteira, o fidalgo, o pastor) ou alegorias (a virtude, a morte, o bem, o mal). Ele classificava suas peças em comédias, farsas e moralidades, embora muitas classificações posteriores sejam diferentes, incluindo uma feita pelo seu filho Luis Vicente. Após a morte de Gil Vicente, ele publicou todas as obras do pai numa edição chamada “Compilaçaum de todalas obras de Gil Vicente”, que já teria alterado muito do original das obras.

 

  É provável que Gil Vicente tenha escrito mais de 44 peças, das quais muitas se perderam. As mais conhecidas são o Auto da Índia, O velho da Horta, o Auto da Barca do Inferno, a Farsa de Inês Pereira e o Auto da Lusitânia, na ordem cronológica em que foram escritas.

  Por esse pioneirismo na arte dramática, maestria com que escrevia seus textos e pela análise crítica que fez da sociedade da época, Gil Vicente é considerado “o Pai do Teatro Português” e suas obras são tão atuais que são montadas até hoje.

 

Adriana Lobo, aluna do Teatro - Escola Célia Helena,. São Paulo -  capital

 
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