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Abril de 2017 - Nº 22    ISSN 1982-7733
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Do desapego

Ramon Vitor Fernandes

19 anos, estudante de jornalismo pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte

Mossoró-RN


 Querida, já faz tanto tempo. Tenho pensado cada vez menos na gente, cada vez menos no que fomos, se é que alguma coisa fomos algum dia, e confesso que de certa forma, me faz bem. No íntimo, me orgulho dessa idéia de seguir em frente, é o tempo agindo e é muito importante que ele aja em tudo. Até em mim. Até em você. E é por você que escrevo agora. Tão somente por você – que nunca dirá aquele obrigado que sempre esperei. Escrevo quase que por lembrança, já que tenho pensado cada vez menos na gente desde que o tempo começou a agir. A luz tá fraca aqui no quarto, e aos poucos perco o que sobra de meus dedos e meus olhos, e da tinta da caneta que mancha esse papel.

 

Sabe, amor, antes de você costumava ser mais fácil lidar com a vida, com os sentimentos e as escolhas. Eu sempre fui a razão sobre todas as emoções alheias. Eu não era impulso nem instinto. Só razão. Eu era o provisório, o que uma hora ou outra acabava partindo, o que uma hora ou outra acabava voltando, o ar arrependido e as promessas não cumpridas na boca do estômago. Eu era o apanhador no campo de centeio, eternamente suspenso, mala e vida feitas; pronto para a fuga. Eu era você, agora que você partiu.

 

Dia desses, vi você na rua, seus cabelos caindo sobre os olhos e seus amigos rindo. Você não me viu. Começo então a suspeitar que no fim das contas nunca me viu de verdade, nunca olhou lá no fundo da água rasa em que me tornei por você. Eu era tão razão e desde então, tão sentimento, sentimentalista até. Faz bem sentir, mesmo que às vezes doa, faz bem, a gente aprende, a gente muda. Uma vez eu disse que mudei muito para continuar sendo o mesmo, mas eu mal sabia. Vejo-me agora tão mais estranho. Como se amadurecesse enquanto os olhos cansam e a dor na cabeça aumenta, de intensidade, de tamanho. Enquanto cresce.

 

Perguntei pra muita gente, mas ninguém na verdade soube explicar, me dizer o que você fez. Eles só vêem, como eu, o resultado, o que mudei. Ninguém deu nome ao que você me fez. Talvez o que você me fez não tenha nome. Eu não me importo agora, um nome não mudaria o que eu sinto. Mesmo meu nome junto ao seu nome, postos lado a lado num papel, deixou de significar alguma coisa depois de sua fuga. Não sei bem o que penso nesse ponto das coisas. Nunca sei o que penso em ponto algum, na verdade. Sou tão somente o apanhador no campo de centeios de Salinger, voltando atrás, voltando ao sonho. Suspenso.

           Cada dia me amontôo mais de papéis – amassados ou não – de textos, de livros. E leio, e ouço música, levando aquela vida pra dentro, da qual nos fala Caio Abreu. Fico tão amargo. Fico tão doce. Fico talvez essa mistura imprópria, fora do ponto, mas nunca fui um bom cozinheiro mesmo, você bem sabe. A tinta da caneta pode acabar a qualquer minuto e de certa forma, ainda não disse o que queria dizer. Tempo eu tenho, não me entenda mal, mas se a caneta acaba, não sei. Já está escuro lá fora e fico um pouco receoso do frio e do silêncio. Seu frio e seu silêncio. A frieza das palavras que você não me disse.

 

Te conheci tão pouco, tudo que quis foi um pouco mais de você sob pena de me entregar por inteiro; você nunca teria me perdoado por te valorizar tanto, justo você que nunca se deu valor algum. Sabe, amor, com o tempo a televisão vai preenchendo aquele espaço que era seu, tenho pensado cada vez menos na gente desde que o tempo começou a agir porque fico me distraindo, com a TV, com os livros e as músicas, mas nunca com as pessoas, as pessoas eu simplesmente amo, porque não quero me tornar nesse momento aquela coisa sem nome que me partiu por dentro.

 

A luz do meu quarto está falhando e minha caneta e minha vista, sento na cama, estou com medo de dormir e me esquecer do que escrevo, estou com medo de sonhar de novo, estou com medo de você. Sabe – e espero sinceramente que saiba amor, porque eu já não lembro de quando você partiu, sempre penso nisso como uma coisa gradativa que se perdeu no tempo. Novamente, só vejo o resultado, não os meios, só os extremos. Tenho pensado cada vez menos na gente e é o que me consola. O tempo agindo em prol do menino de Salinger dessa vez. Sou o apanhador no campo de centeio, partindo então, dando às costas pras lembranças, me libertando. E embora o tempo aja, e embora eu mesmo aja e aja a televisão, a pergunta talvez persista ainda, pulando em minha mente: ainda penso em você?

 

Espero que não.

 

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