Rondinelli Tomazelli
21 anos, 8° período/Jornalismo - Centro Universitário São Camilo
Cachoeiro de Itapemirim - ES

A internet traz mesmo boas surpresas. No baú virtual encontrei “Missa dos Quilombos”, disco de Milton Nascimento gravado em 1982. Raridade, a obra traduz um grito de guerra entoado pelo Brasil: os direitos dos negros. Tambores, berimbaus e corais gregorianos embalam o canto ecumênico.
“Em nome do Deus de todos os nomes (...) Em nome do filho Jesus nosso irmão, que nasceu moreno da raça de Abraão. (...) Em nome do povo sempre deportado pelas brancas velas no exílio dos mares, marginalizados nos cais, nas favelas e até nos altares...”
Este é um trecho de “Em nome de Deus”, a terceira de 15 faixas que gritam contra a intolerância religiosa e racial. Mistura do catolicismo às divindades africanas. Já consagrado pelo Clube da Esquina e pela militância contra a ditadura, Milton fez de Missa dos Quilombos uma obra de arte. Mesmo desligado de tradições religiosas, fui tomado pela overdose de fé que transborda do disco.
Seguindo a semiologia de Roland Barthes, digo que o CD deixou a condição de show musical para alcançar outra significação: uma pregação do Evangelho mesclada ao som da cultura popular. Resgatando elementos da cultura negra e dos rituais da missa católica, a obra tem a abertura Dom Helder Câmara, evocando o texto de Pedro Tierra “Trancados na Noite”. Símbolo da luta pelos direitos humanos no período militar, Dom Helder volta na 13ª faixa entoando a “Marcha Fina (De Banzo e de Esperança)”.
“Não basta pedir perdão pelos erros de ontem, é preciso acertar o passo hoje sem ligar ao que disserem. Claro que dirão, Mariana, que é política, que é subversão, que é Comunismo! É Evangelho de Cristo, Mariana! Problema de negro acaba se ligando aos grandes problemas humanos, com todos os absurdos, injustiças e opressões contra a humanidade. (...) Basta de injustiça, de uns sem saber o que fazer com tanta terra, e muitos sem ter um palmo de terra onde morar” (...). Aí está uma catarse coletiva, que extravasa do som do piano para provocar um choque de consciência.
Do início ao fim, as faixas seguem o ritual de uma missa católica: Rito penitencial (Kyrie), Aleluiá, Ofertório, O Senhor é santo, Rito da paz, Comunhão, Raça, Ladainha, Pai Grande e Ony Saruê. “No dia 13 de maio de 1888, nos deram apenas decreto em palavras”, sentencia um solo. Com a maioria das letras compostas em parceria com Pedro Tierra e Pedro Casaldáliga, Milton uniu sua devoção afro-cristã em torno de uma proposta ousada: falar dos problemas sociais e da desigualdade dos brasileiros em pleno plantão dos generais em Brasília. Esta não foi a primeira vez que sofreu os infortúnios do Estado de exceção. Seu show Pietá foi tomado por militares pouco antes de começar. A vida de seu filho também esteve em xeque naquele período.
Por quê falo disso? Para dizer que, por todas as escolhas que fazemos, pagamos um preço. Porque dificilmente, mesmo gozando das liberdades do regime democrático, corremos riscos em defesa de uma causa. Então, faço aqui meu rito penitencial por não ir muito além do meu próprio umbigo. Depois de ouvir Missa dos Quilombos, não tenho muita coisa para falar sobre Cultura.
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