Sônia Makaron
Psicanalista e diretora do Jornal Jovem
Vende-se: Acessório para entretenimento e educação de crianças.
Seria essa uma boa forma de nos referirmos a este fantástico instrumento chamado TELEVISÃO? Imbatível canal de comunicação tanto pela quantidade como pela velocidade da informação. Nesses quesitos perdemos feio.
A modernidade encolheu o tempo que dedicávamos aos filhos. As escolas já nos dão suporte mais cedo. Existem babás, empregadas, cursos extras, mas especialmente contamos com a TV.
Velhos tempos aqueles em que se acreditava que era possível um ‘controle’ sobre aquilo que poderia prejudicar a formação e o desenvolvimento dos filhos. Este tipo de crença, proporcionava uma doce ilusão de que se poderia afastar todos os ‘diabinhos’ que representassem uma ameaça aos filhos, bastando para isso “ficar de olho na vizinhança” e exercer um controle do tipo ‘tribal’.
Hoje estamos situados num outro marco. Dizem que hoje em dia a nossa casa é o próprio globo, este globo que nos chega por meio de ondas invisíveis que se transformam em imagens televisivas e internéticas.
As dimensões e demarcações da área útil do ‘lar’ ultrapassam nossas paredes mas mesmo assim, curiosamente, nunca nos sentimos tão prisioneiros e tão cativos do desconhecido .
Será que podemos mesmo sentir “familiaridade” com este mundo que nos é apresentado de uma forma tão íntima?
Hoje, não sabemos mais o que está nos visitando e o que está nos invadindo.
Televisão, que fascinação!
Luzes, cores e movimentos conjugados de uma forma inebriante. A rapidez das informações que parecem nos desafiar. Nossos sentimentos, os mais diversos, desfilando despudoradamente na tela, contando histórias outras, que poderiam ser as nossas (às vezes difíceis de serem contadas). A magia que nos faz viajar. E tudo isto bastando um aparelho de TV ligado e um par de olhos abertos.
De qualquer forma a TV é um substituto sempre insatisfatório para aquilo que a criança precisa.
Por mais que ela informe, por mais que ela encante, ela não organiza as experiências afetivas e cognitivas que a criança precisa, nem mesmo quando se propõe a ser interativa.
Como então ajudá-las a organizarem as informações que recebem da televisão, da escola ou de outras fontes, inclusive dos próprios pais? Como ajudá-las a processar experiências que parecem tão caóticas para elas?
Este é um caminho cheio de sutilezas, muita observação e boa interação.
Isso quer dizer que os pais podem (ou não) ser organizadores para a criança das diversas informações que ela recebe, e queiram ou não, têm participação ativa na configuração que a criança fará de suas vivências mais marcantes. Poderíamos dizer que este papel é insubstituível, quer o façamos bem ou não.
Voltando para o canal da Televisão.
Se olharmos para as crianças com seu ingênuo olhar, o que vamos ver? Dependendo do momento, uma alegria, absolutamente pueril ao ver num desenho animado o Pateta virar uma placa achatada no chão depois de ser atingido por uma monstruosa pedra, e num segundo estar de pé, inteiro e inflado! Alguns minutos depois um olhar de terror, quando ela presencia, num daqueles rápidos noticiários de última hora, uma fuga de detentos de um dos vários presídios da cidade, com direito a tiroteio e tudo mais. Daí a pouco, numa novela das 8 (para adultos!) uma mulher sendo espancada por seu próprio marido. Que espanto! Ou então num plantão de última hora (afinal precisamos estar sempre bem informados) , corpos mutilados e sem vida sendo recolhidos após um ataque aéreo em algum lugar deste planeta.
Por mais que se cuide em selecionar o que os filhos podem ver na TV, nem sempre se consegue evitar certos disparos de informações totalmente inadequados para uma criança.
Alguns dirão que este tipo de informação também vem de outras fontes que não a TV. É verdade. Mas a TV nos surpreende pelos persistentes excessos ao expressar emoções (muito ódio, muito amor, muita pancadaria, tudo muito!) e pela constante e inadequada imprevisibilidade dos acontecimentos que são mostrados. Se a televisão fosse de carne e osso ela nos enlouqueceria!
Uma criança pequena vive o mundo do imaginário com grande desenvoltura, podendo divertir-se bastante com qualquer desenho animado. Por outro lado ainda lhe faltam recursos para lidar com este mundo dos adultos que falam de coisas diferentes.
Alguns dirão que a criança precisa ir se acostumando a isso, pois faz parte da vida. Isto infelizmente é inquestionável. Mas o que está em jogo aqui é outro coisa. Diz respeito à estruturação psíquica que se tem num determinado momento da vida para receber informações que invadem e aterrorizam.
Se para nós adultos já é difícil, imaginem para as crianças. Deveria ser dado a elas o direito de poder viver em paz seu passageiro mundo colorido que tanto nos enternece, até porque muitas vezes nos falta.
Neste mundo tão sem tempo, não podemos esquecer que tudo tem seu tempo.
A passagem deste mundo da criança predominantemente imaginário para um mundo mais simbolizado precisa ser intermediada por palavras organizadoras e significativas para ela.
É isso que vai determinar a qualidade, o tipo de impressão afetiva das experiências. Por sua vez, estes registros vão reger nossas vidas, determinando nossas reações afetivas no futuro. Quando o mundo simbólico é rico, e isto quer dizer rico de significantes para designar as próprias vivências, tem-se mais recursos para lidar com o duro da vida, e corre-se menos risco de desestruturação.
Acompanhar bem a criança é fazer este papel tão fundamental de intermediador entre o mundo imaginário que ela vive e este mundo da realidade que está sendo apresentado a ela, geralmente de uma forma abrupta.
Este lugar nenhuma TV ocupa. E se os pais não o fizerem, alguém o fará, basta que tenha alguma importância para a criança (mesmo sendo despreparado), pois a criança busca respostas, entendimento e compreensão para tudo aquilo que ela ainda não domina e não consegue processar.
Dizem alguns pais: - As crianças querem saber tantas coisas!
Mas aquilo que elas querem saber, em última instância, são questões que dizem respeito à vida e à morte, ao amor, à amizade, à separação ou perda de alguém querido.
Querem saber a o que se deve dar importância na vida, e como devem reagir frente ao desconhecido.
Querem aprender como lidar com a dor, a agressividade, a violência, a guerra.
E tudo isto, num caminho de duas vias, isto é, quando os acontecimentos ou sentimentos vêm de fora ou de dentro dela.
São informações que formarão as idéias da criança sobre a vida.
Não subestimemos o que uma criança pergunta, pelo fato de ser uma criança perguntando. Ela nos coloca frente a questões centrais da própria filosofia.
Questões que brotaram desde muito antes de nascermos e que irão nos acompanhar para sempre nas diferentes fases da vida, cada vez com uma cara diferente, às vezes mais requintada, às vezes mais contundente ou mais tranqüila.
A profundidade de uma criança não é menor que a de um adulto. Simplesmente é diferente.
Falar muito...falar pouco?
Não se deve dar feijoada a um bebe. Por outro lado, o silêncio favorece a permanência dos fantasmas.
Antes de responder, de pronto, à criança, pergunte a si próprio :
O que posso dizer a ela que acalme sua angústia frente a uma situação ainda desconhecida para ela, mas ao mesmo tempo não a bloqueie de medo nos seus pensamentos e ações futuras?
É preciso encontrar um caminho onde não se apresente aos filhos nem um mundo de Polyanna nem um mundo de trevas e fantasmas. Qualquer um dos dois dificulta um desenvolvimento mais saudável.
Mas, é preciso um razoável conhecimento do próprio funcionamento psíquico para se conseguir fazer tudo isso com maiores chances de êxito. Nossas limitações afetivas acompanham nossos atos. Aos pais também se coloca o desafio do crescimento.
Assistir TV. Contraponto: Tentar enxergar e perceber o que se passa com os filhos... e consigo próprio. Boa Sorte!
Sônia Makaron
Psicanalista
Editora do Jornal Jovem
Consultório: Pça Amadeu Amaral, 47 cj 85
Fone:3288-9752 |